Eu fiz um juramento...
- mvpluiza
- 19 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de out. de 2025

"Juro que, no exercício da Medicina Veterinária, cumprirei os dispositivos legais e normativos, respeitando o Código de Ética profissional, buscando harmonia entre ciência e arte, aplicando meus conhecimentos para o desenvolvimento científico e tecnológico em benefício da saúde única e bem-estar dos animais, promovendo o desenvolvimento sustentável. Assim eu juro!"
Juramento do médico veterinário.
Nós, médicos veterinários, fazemos o juramento na colação de grau, mas me parece que muitos esquecem desse compromisso durante sua carreira. Na graduação, recebemos ensinamentos sobre como aferir sinais vitais e exame físico, colher informações sobre histórico, fazer anamnese, interpretar exames, fazer diagnósticos e etc., enfim, toda a formação técnica necessária para perceber o fim de vida de nosso paciente, avaliar corretamente o momento de encerrar as tentativas de tratamento e dar um final digno para a vidinha que não mais responde. No entanto, hoje parece que ser um bom veterinário é sinônimo de "exames", "internação", "remédios", sem conectar o bom senso com a realidade do prognóstico ruim, o bom senso com a qualidade de vida tanto do animal quanto do tutor.
A maioria dos graduados saem da faculdade com crenças limitantes sobre eutanásia ou mesmo sem ideia nenhuma, visto que não se conversa sobre isso nas salas de aula, e acabam lidando com esse assunto de maneira emotiva e imatura, e não técnica e racional.
Muitos veterinários insistem em internar o animal inúmeras vezes ou tentar mais uma vez tratamentos e/ou paliativos eternos, por mais que o tutor demonstre dificuldades financeiras, esgotamento físico e emocional e, principalmente, por mais que o animal não esteja respondendo e esteja visivelmente em sofrimento, com baixa ou zero qualidade de vida. Eu penso que meus colegas têm essa atitude pois, a crença é de que um bom veterinário é aquele que "luta" para manter seu animal VIVO mesmo que seja em detrimento da qualidade de vida. Não se discute sobre qualidade de vida e não se reflete sobre o futuro real de um prognóstico ruim. Aqui no Brasil, eu percebo que existem preconceitos e paradigmas sobre a eutanásia entre os próprios veterinários!
ISSO É UM FATO.
O que mais tenho escutado na minha rotina são relatos dos tutores com animais em fase terminal afirmando que seu médico veterinário (de confiança) nunca os orientou sobre a eutanásia, simplesmente falavam que não havia mais o que fazer ou ainda, "não largam o osso". Porém, simplesmente dizer "não tem mais o que fazer...", é condenar esse animal ao mais profundo sofrimento e a agonizar até a morte, além de, ao mesmo tempo, fazer o tutor passar por essa angústia ... o que causa prejuízos à sociedade em inúmeros aspectos.
Não concordo com a ética veterinária que insiste em esperar que o tutor de um animal terminal coloque o assunto na mesa PRIMEIRO. O tutor é leigo, como ele poderá pensar que é um caso de eutanásia por conta própria? Se chega a pensar, geralmente o animal já sofreu horrores. Se o veterinário não traz luz à realidade, a tendência é o tutor se agarrar a qualquer sopro de esperança e continuar tentando... querendo crer que seu bichinho terminal ficará curado...
Como bons médicos veterinários, lembrando do tal juramento, para esses casos, temos o DEVER de colocar a opção eutanásia na mesa! SE EXPLICAR ao tutor o porquê da indicação, a maioria, por mais relutante de início, consegue refletir e perceber que realmente seria o melhor para seu bichinho e assim tomar a difícil decisão com consciência e maturidade, munido de informações realísticas e técnicas.
Preciso pontuar que muitos tutores relatam medo de trazer esse assunto, porque quando o fazem, alguns Médicos Veterinários, constrangem esse tutor, o julga ou condena essa ideia. Tenha mais compaixão, procure entender porque o tutor trouxe o assunto, CONVERSE.
Óbvio que não é para banalizarmos a eutanásia! É para lembrar que ela EXISTE, é LEGAL e lembrar que nenhum ser vive para sempre, saber que existe a hora de parar e que todos merecem um final com dignidade. Lembre do JURAMENTO.
Luiza de Vasconcellos
1 12.04.2024




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