A negação da morte
- mvpluiza
- 1 de fev. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de out. de 2025

No Brasil, devido à questões culturais e/ou religiosas, morrer é impensável e tocar nesse assunto parece provocar um mal estar geral, parece ser feio e ser falta de sensibilidade. Falar em morte é um grande tabu em nossa sociedade, mas para que possamos evoluir, é necessário colocar este tópico em pauta. Afinal, a única certeza que temos na vida é de que iremos morrer um dia.
O nosso país é imaturo demais nesse assunto. Na área de medicina veterinária não é muito diferente. Ninguém conversa sobre a morte. Inclusive, muitos veterinários repreendem seus clientes por considerarem fazer eutanásia em seu animais em fase terminal. Isso somente os envergonha e traz um sentimento de culpa desnecessário. Pelo contrário, é importante estarmos abertos a essa conversa e precisamos ter sensibilidade para ouvir e avaliar todo o contexto da vida do animal e do cliente. Na minha rotina percebo que os tutores têm medo ou vergonha de tocar neste assunto com seu médico veterinário. Medo de serem repreendidos, vergonha de serem julgados.
Não estou dizendo que devemos banalizar a eutanásia, mas sim que devemos sempre colocar como uma opção, quando a doença chegar no estágio final, quando o animal estiver em grande sofrimento, quando não houver perspectiva de cura, quando não estiver mais respondendo ao tratamento, quando existirem mais dias ruins que bons, quando a qualidade de vida de nosso amiguinho não existir mais, quando a interação diária com o tutor se tornar uma experiência tão negativa e pesada que ambos ficam sobrecarregados e exaustos emocionalmente.
Cuidados necessários como remédios a cada 2 horas, troca de fraldas, animal acamado, dor crônica insuportável que precisa de opioides fortes para vencer o dia, sem chance de voltar a ter uma vida com dignidade... Devemos nos perguntar se tudo isso faz sentido no final da vida desse animal. Prolongar essa vidinha vazia e sofrida para quem? O que o animal ganha com isso? O que o tutor ganha com isso? Temos que nos colocar no lugar deles e saber a hora de parar. Afinal, ninguém vive para sempre.
Caso o tutor não toque nesse assunto, nós veterinários, acredito que temos o dever de informar a ele que existe essa opção e que caso ele queira conversar sobre isso, nós temos que estar disponíveis para tirar dúvidas e sim, estarmos dispostos a fazer ou se não, indicar quem faça. Opiniões podem ser mudadas, dogmas podem ser quebrados. Uma mudança de paradigma a nível Nacional é preciso.
Luiza de Vasconcellos
30.01.2024




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